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Bouvard e Pécuchet

"- Olha! - disse ele - tivemos a mesma ideia, de mandar gravar os nossos nomes nos chapéus. (...) O ar grave de Pécuchet impressionou Bouvard." Ou de como dois tolos reconhecem tolos, postolos.

sábado, junho 21, 2003

POSTOLO SOBRE TUDO

recolhido de um blog verde alface:

CINEMA: "O Estado das Coisas", de Wim Wenders. Ao ver este filme, compreende-se tudo.

- Pécuchet, compreender tudo?
- É o nosso maior objectivo.

posted by BP  # 3:34 da tarde
"Bouvard vê o futuro da humanidade em beleza. O Homem moderno está em progresso."

- Amigo Pécuchet, os blogs são sinais deste futuro.
- Sem dúvida, Bouvard. São vozes diferentes de todas as outras vozes. São vozes de pessoas.
- Pessoas diferentes.
- Pessoas diferentes das que são iguais a todas as pessoas iguais.
- Pessoas como nós.
- Pessoas como nós.
- Respiro de alívio porque estamos os dois de acordo em relação a este assunto.

"- A mim ninguém pode deixar de me ligar importância! - exclamou Pécuchet (...)"

posted by BP  # 3:23 da tarde

quarta-feira, junho 18, 2003

POSTOLEIRÃO

comprimidos por isto:

Blogar é escrever num meio terrivelmente aberto - interactivo, instantâneo, espúrio - a partir de um momento terrivelmente particular - o eu, o ser, a alma. É um lindo fogo posto que salta entre a faísca da intimidade e o incêndio público de todas as coisas.

- Amigo Pécuchet, o eu, o ser, a alma.
- Amigo Bouvard, esse é o nosso discurso favorito.
- Sem dúvida. O que apela ao lindo fogo posto...
- Que saltita entre a faísca da intimidade...
- Quem nos compreende senão nós?
- Nós.

"Tinham prazer em nomear em voz alta os legumes: 'Olha, cenouras! Ah, couves!'"
Obrigado Flaubert.
posted by BP  # 12:00 da tarde
POSTOLO PRECOCE

em Oeste online isto

O CURTO PRAZER DA EJACULAÇÃO PRECOCE
Se não fosse denúncia de costela inculta considerar como fruta os cogumelos, diria que a fruta da época estes últimos meses têm sido os blogs, que pululam pela internet como os ditos cogumelos é suposto pulularem.

Nos anos iniciais da internet, qualquer australopithecus internetensis achava em si suficientes motivos de interesse para se dar a conhecer ao mundo. Em especial a partir de 2002 deu-se um salto evolutivo: o internauta que se preza já não se satisfaz com manter um sitezinho mais ou menos rico em conteúdo — o que está a dar, o que é in, o que é fashion, é criar um bloguinho, na certeza de que, algures, há alguém interessado em ler o que temos a dizer sobre um assunto — qualquer assunto. A palavra de ordem, agora, não é darmo-nos a conhecer ao mundo — é comentá-lo: surgiu o homo commens internetensis.

Mas a moda dos blogs não é sem contra-indicações. A maior de todas advém do seu imediatismo: o interesse de um comentário esgota-se quando se esgota o interesse pelo assunto comentado, e assim a reacção aos acontecimentos tem de ocorrer antes que a sombra do passado que se avizinha se lance sobre aquilo que queremos comentar. Donde resulta um desagradável fenómeno de precoce ejaculação verbal: quando a cabeça não tem juízo, ainda mal nos demos conta e já o produto não cerebralmente filtrado do trabalho dos dedos sobre o teclado está online, disponível para quem quiser ver — e lançar as culpas sobre o cérebro que, coitado, até nem teve nada a ver com o assunto.

Felizmente, no mundo dos blogs é possível dar o ejaculado por não ejaculado (volta, Bill, que estás perdoado!), limpar atabalhoadamente as calças com a mão e assobiar para o lado. Depois, é apenas uma questão de tempo até que a marca do precoce acto ejaculatório se desvaneça das memórias dos passantes.


- Pécuchet...
- Novidades?
- É possível dar o ejaculado por não ejaculado?
- Penso que essa ideia é deveras interessante.
- E a ideia de ejaculação verbal?
- Não se contém nas palavras. Está aí em cima o exemplo.
- Brilhante.
- É dos nossos.

posted by BP  # 8:07 da manhã
POSTOLO INFANTIL

do blog gato fedorento aqui vai este:

O LULANTE: Nelson Rodrigues é, sem dúvida, um grande escritor de língua portuguesa. Mais: no grupo daqueles que usam com frequência a palavra “bobagem”, é certamente um dos maiores. Mas abusa do adjectivo “ululante”. Demasiadas coisas ululam na prosa de Nelson Rodrigues, se querem a minha opinião. A multidão ulula, os jovens ululam, as senhoras grã-finas ululam. Ululam os actores, ululam os naturais do Rio de Janeiro e até o óbvio, obviamente, ulula.
Ora, Nelson Rodrigues era um homem de um reaccionarismo encantador. Parte da nossa direita, pela mão, por exemplo, dessa autêntica vanguarda reaccionária que é A Coluna Infame, começa a descobri-lo e a admirá-lo (ululantemente, diga-se). E começa também, como é hábito, a imitá-lo. Sempre que um escritor de direita consegue articular o sujeito com o predicado a juventude conservadora celebra o facto raro indo à gaveta buscar o papel químico. Ainda me lembro da altura em que todos os meus amigos de direita escreviam à Miguel Esteves Cardoso. Com Nelson Rodrigues vai sucedendo agora, tardiamente, o mesmo. Ulula-se e vai ulular-se cada vez mais, por esses blogs conservadores afora. Pode ser que passe depressa.


- Amigo Pécuchet, eis uma pérola.
- Absolutamente brilhante.
- Para o jovem serôdio o tempo começa sempre ontem, mesmo que, fatalmente, tenha começado agora.
- Diamante, Bouvard.
- Como é que se descobre um jovem serôdio?
- Quando ele fala do tempo passado é como se o tivesse descoberto agora.
- Brilhante.
- Sem dúvida estamos em boa companhia mas também pode ser que passe depressa.
- Pode. Mas com uma boa educação tudo tem solução. Ainda te lembras?
- Sim.


posted by BP  # 3:43 da manhã
- Bouvard?
- Diz amigo.
- Só postamos postolos porque nos revemos, não é?
- É. Tolos são os trapos.
- Os velhos...
- Aqui não há velhos nem novos. Só há tolos como nós.
- Ser tolo é muito conveniente.
- Sem dúvida. Será dos tolos o reino do Céu.


posted by BP  # 3:31 da manhã
POSTOLO PROVINCIANO

recolhido do blog marretas.

"É A CULTURA ESTÚPIDO!" NAS BERÇAS
Pedro Mexia e Zé Mário Silva apresentaram na UBI uma sequela do "É a cultura, estúpido!"
Sobre a sessão propriamente dita, deixo a reportagem ao cuidado do Statler (cuidado com as descrições anatómicas, ó velhadas!).

(...)


- Bouvard, viver longe da capital pode ser muito estimulante.
- Sem dúvida. Mal chega alguém de fora ganha-se um outro alento.
- Concordo.
- Tem a ver com os horizontes...
- Abrem-se!
- Sempre gostei da palavra estúpido.
- Eu também. Os estúpidos fazem-nos rir.
- Sem dúvida.

posted by BP  # 2:42 da manhã
POSTOLÍSSIMO

recolhido do blog de aviz.

OS AMIGOS IV

Os amigos vêm uma vez ou outra e sentam-se,
mostram-te como são dóceis ou difíceis, ou
como a morte se impede, por eles, de chegar
até ti. São uma barreira contra a morte,

os amigos, acaricias vagamente o seu rosto
ou a sua memória, as palavras não servem
para isso. Por eles vem a geometria do mundo,
neles se perde depois, nem que seja para sempre.

Vê como eles chegam e trazem vinho, tabaco,
vergonha, cartas antigas, recortes de jornais,
músicas que ouvimos antes. Depois sentam-se

chamam-te para o meio deles, emprestam-te
uma palavra ou outra, caminham com vagar,
riem, trazem coisas que esqueces por toda a casa.




- Pécuchet?
- Presente.
- Os teus amigos quem são?
- Só tenho um amigo que és tu.
- Eu gostava de poder ter escrito isto. Amigos IV.
- Em numeração romana qualquer algarismo ganha densidade.
- Concordas que os amigos vêm uma vez por outra?
- Concordo. E que te emprestam uma palavra ou outra.
- Tenho que pensar.
- Pensarei também.
- Sempre gostei muito de poesia. Aprecio a geometria do mundo.
- Vou sonhar com essa ideia.
- Eu dormirei com os amigos, enquanto tu acaricias vagamente o seu rosto.
- ?

mais postolos?
posted by BP  # 2:29 da manhã
PRIMEIRO POSTOLO MELOSO

apanhado do chão no blog de esquerda:

PRAIA DA AMOREIRA. (...) Há sempre qualquer coisa que se perde com o tempo, com a erosão dos anos. A memória atraiçoa-nos, porque embeleza o que não era tão belo assim e apaga as manchas incómodas, as áreas de sombra ou neblina. Os lugares, esses, como as pessoas, nunca permanecem completamente fiéis. Mudam sem que saibamos bem como, alteram a sua personalidade, a sua fisionomia, tornam-se outra coisa. Quando regressamos a um lugar que um dia amámos, é essa diferença (tantas vezes imperceptível) que nos salta à vista. Aquelas casas não se erguiam, ameaçadoras e feias, no cimo da colina. As dunas tinham outro contorno. Não havia tanto silêncio, ou tanto ruído, ou tanto lixo. É nessa diferença, nesse hiato entre o que vemos hoje como uma evidência objectiva (ia dizer: fotográfica) e a imagem imprecisa que paira na memória, que se instala o sentimento de perda, o desencanto, a nostalgia.
Não devemos regressar aos lugares que um dia amámos, porque esse amor é – quase sempre – irrepetível. Quase, sublinho. Ontem regressei à Praia da Amoreira. Tanto tempo depois (25 anos?) reencontrei a mesma beleza desolada do areal que enfrenta o mar de cabeça erguida, o mesmo rio estreito serpenteando junto à falésia, as mesmas rochas que formavam à sua volta (nessa utopia que é hoje a minha infância) lagoas efémeras na maré baixa. Olhei à volta, senti no rosto o vento salgado, caminhei pela areia junto ao limite das águas. Foi então que a antiga Praia da Amoreira começou a desvanecer-se. Ou melhor, a fundir-se com a Praia da Amoreira que existe hoje. Passado e presente misturando-se, como as dunas depois da tempestade. Como nós.
E de repente, sem aviso, uma alegria violenta. A alegria violenta a que se costuma chamar, no escasso tempo que dura, felicidade.



- Bouvard?
- Diz Pécuchet...
- Há sempre qualquer coisa que se perde com o tempo.
- Absolutamente de acordo.
- (nessa utopia que é hoje a minha infância)
- Nem me lo digas!
- Como é que costumas chamar à alegria violenta?
- No escasso tempo que dura? Felicidade.

Mais tolo que isto só o próximo postolo.

posted by BP  # 1:58 da manhã
- Bouvard...
- Pécuchet?
- Deste com algum post ao nosso gosto?
- Mal acabe de pensar, estou certo que não hão-de faltar postolos.


posted by BP  # 1:44 da manhã
"Como todos os artistas, sentiram a necessidade de ser aplaudidos - e Bouvard pensou em oferecer um grande jantar.
- Cuidado! - disse Pécuchet - vais lançar-te nas recepções. É um abismo"
obrigado Flaubert
posted by BP  # 1:36 da manhã

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